Construindo um mercado de trabalho mais feminista

Em um cenário marcado pelo rápido avanço de inovações tecnológicas que estão transformando o modo de vida que conhecemos, qual a efetiva participação das mulheres nos setores diretamente ligados a essas mudanças?

Discutir algo que está tão arraigado em nossa sociedade, na forma como vemos o mundo, como fomos criados e educados, é de pouca utilidade se antes não debatermos a forma como fazemos isso. A inserção das mulheres no mercado de trabalho formal, promovida com a industrialização e que se intensifica a partir das Grandes Guerras, com a dizimação da população masculina, ocorreu desde seu início de forma desigual. Inclusive, o trabalho realizado por mulheres ganha escala justamente por representar menores custos aos empregadores. No Brasil, a disposição do código civil de 1916 que proibia a mulher de trabalhar sem autorização do marido e na falta deste, do pai, esteve em vigor até 1962. E apenas há 29 anos, na Constituição de 1988, preocupou-se em garantir-lhes direitos iguais. Infelizmente, constituições ainda não mudam comportamentos.

Segundo o estudo do Instituto de pesquisa econômica aplicada (Ipea), as mulheres não apenas trabalham muito mais que os homens — em média 7 horas semanais a mais ao se considerar o trabalho não remunerado que desempenham em seus domicílios, grande parte das vezes sem a ajuda de seus companheiros -, como continuam a receber salários mais baixos. Os salários entre mulheres negras são ainda menores. Em geral, essas questões estão muitas vezes ligadas à presença de mulheres em indústrias diversificadas e aos cargos que ocupam.

Ainda de acordo com o levantamento do Ipea, no que diz respeito aos setores econômicos, em 2015, 15,2% da população masculina trabalhava na construção civil. Já entre a população feminina essa proporção era de 0,7%. Na área de Serviços sociais, que incluem serviços domésticos, educação e saúde, 5,5% dos homens desempenhavam suas funções nesse setor enquanto entre as mulheres, a proporção era de 33,7%. Isso sem falar nos setores que despontam a partir do uso das novas tecnologias com o potencial de gerar inovação, crescimento econômico e desenvolvimento social que possibilitam diminuir desigualdades. Segundo a Dieese, em 2013, a mão de obra feminina no setor de engenharia ligada à indústria da computação era de 21%. A Endeavor publicou no mesmo ano um estudo sobre o cenário empreendedor no Brasil, onde se via que a minoria dos empreendedores formais (39%) eram mulheres. De acordo com a Pintec, dos pesquisadores nas atividades de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) em empresas que implementaram inovações em 2015, apenas 20% eram mulheres.

Cenários como esses acabam contribuindo para a difícil tarefa de dar maior reconhecimento ao papel da mulher no mercado de trabalho, e consequentemente na sua inserção em indústrias que surgem com a crescente disseminação de tecnologias inovadoras, dificultando até mesmo a sua participação nas novas atividades da economia do conhecimento. Em um artigo publicado no Fórum Econômico Mundial, Arwen Armbrecht (2015) chama atenção para o pioneirismo feminino no setor de TI e computação que é pouco lembrado e muito anterior a nomes como Mark Zuckerberg, Steve Jobs e Bill Gates. O trabalho das mulheres no campo da ciência da computação tem sido silenciosamente pioneiro há anos, e só não é maior por falta de oportunidades, não de capacidade, dentro de uma cultura que ainda é sistematicamente desigual, o que fica claro no livro “Unlocking the Clubhouse: Women in Computer”, escrito por Jane Margolis e Allan Fisher.

O que esperar de um mundo que surge na iminência de tecnologias disruptivas baseado na Internet das Coisas e na Inteligência Artificial, se ele for programado e desenvolvido majoritariamente por homens? Como diminuir desigualdades, então, se a participação neste processo já começar desigual? Se esperamos que as novas tecnologias de informação e comunicação e as inovações que dela decorrem tragam de fato benefícios para a sociedade, então já passou da hora de percebermos que a igualdade de gênero e raça é mais do que uma questão importante. Ela é primordial para se desenhar o futuro.

Talvez o tema pudesse ser uma disciplina do ensino fundamental. Se isso não contribuir para a diminuição das desigualdades em cursos universitários e, posteriormente, no mercado de trabalho, ao menos servirá para repensarmos as suas raízes e reconstruirmos novas realidades. No entanto, o modo como ainda se aprende sobre estes assuntos nas escolas — como consequência quase que natural de processos históricos corrompidos -, expõem o distanciamento dessas instituições com problemas sociais importantes e atuais e demonstram a lacuna do sistema educacional frente a uma realidade cada vez mais dinâmica e complexa.

Feminismo não é moda, nem mimimi, nem exagero. É uma questão de desigualdade social que há anos perdura e sua luta tomou maiores proporções com a comunicação em rede. Por isso, é grave encontrar ainda hoje pessoas que acreditam que haja distinção entre machismo e piadas machistas que ridicularizam, diminuem ou objetificam o papel da mulher. Elas moldam culturas, e, portanto, dão continuidade e legitimam comentários e atitudes inaceitáveis, que aparecem de forma recorrente no mercado de trabalho e insistem em ofuscar o papel das mulheres. Acreditar que não participamos de determinadas atividades econômicas por falta de interesse é não apenas ultrapassado como um desserviço para a sociedade como um todo, inclusive para a inovação social e econômica. Como Jane Margolis e Allan Fisher documentam, a participação das mulheres na ciência da computação é uma contra narrativa capaz de trazer novos significados ao desenvolvimento tecnológico.

SÉRIE GÊNERO, TECNOLOGIA E SOCIEDADE | 2ª parte

O Dia Internacional das Mulheres é uma data que marca a luta pelo avanço de direitos: legais, trabalhistas, sociais, ao corpo e, também, digitais. Entender como a tecnologia afeta questões de gênero — e vice-versa — é fundamental para promover debates mais informados e avanços reais para a igualdade de gênero em tempos de retrocessos e contextos políticos e sociais conturbados. Dessa forma, o Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio (ITS Rio) lança a série Gênero, Tecnologia e Sociedade, celebrando esse dia, com textos que serão publicados durante todo o mês de março. As mulheres da nossa equipe abordarão temas como ciberfeminismo e ativismo digital, o papel das mulheres na inovação, mulheres produtoras de audiovisual, pornografia de vingança e direito à imagem.

*Luiza Mesquita é coordenadora de projetos do ITS Rio, liderando a linha de pesquisa Repensando Inovação.

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Construindo um mercado de trabalho mais feminista was originally published in ITS FEED on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.

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