Ela pensa o cotidiano com cinema e tecnologia

A luta pela emancipação das mulheres é importante, necessária e estratégica. Todas as formas de luta se somam de alguma forma e entender essa diversidade sem hierarquização é fundamental. Há quem proponha projetos de lei e quem proponha espaços de cura. Laís é uma feminista que, de maneira muito simples, oferece um espaço de alívio na internet.

“Um pouco fluminense e nordestina. Feminista e videomaker.”

É assim que a publicitária Laís Dantas, de 22 anos, se autodescreve. Desde o final do ano passado, Laís aproveita suas redes sociais para publicar um pouco do seu olhar sobre situações do dia a dia de um jeito sensível e poético, em pequenas pílulas de vídeo. Daí o “videomaker”, ela é uma fazedora de vídeos e aproveita essa ferramenta para nos oferecer pequenos respiros no cotidiano.

Você é feminista? Por quê?

Sim. Eu não sou boa com textos e nem para explicar coisas, mas quando eu era pequena passei por um episódio em que estava tocando violão junto com alguns homens e eles disseram que eu estava tocando errado porque eu era menina. Fiquei bem triste e só agora entendo melhor o porquê daquilo. Só porque sou menina eu não sei tocar bem? Como assim? Eu fiquei indignada. Hoje vejo que o feminismo luta para mudar esse tipo situação e outras mais densas. O feminismo me ajudou a reconhecer outras manas em suas diversas habilidades, profissões e fico muito feliz quando as vejo conquistando espaços usualmente considerados masculinos.

Quando foi seu primeiro contato com cinema? Onde você estudou/estuda?

Meu primeiro contato com cinema foi na faculdade, quando estava no 2º período e fiz um curso de extensão de edição. O professor do curso passou vários filmes, livros sobre cinema e edição, fiquei encantada. Depois desse curso, fiz outro sobre operação de câmera e comecei a me interessar mais pelo ramo, mas sempre quis mais trabalhar com TV do que cinema.

Laís Dantas

Esses pequenos vídeos que você faz são como fotografias, impressões de ideias, épocas e momentos. Quando você começou a fazê-los? De onde partiu a ideia?

Eu sempre fui insegura para mostrar meus trabalhos. Comecei a fazer vídeos com esse estilo há menos de um ano. Sou apaixonada por canais do YouTube como New Age Creators, Cecile Emeke, Casey Neistat, Sarah Diestchy e outros que contam histórias, fazem reviews de viagem, etc. Faço parte de um grupo no Facebook, onde assisto vários vídeos que uso como inspiração. Percebi que várias pessoas iniciantes postavam seus conteúdos ali para serem avaliados e pensei em produzir os meus e colocar lá também.

Você acredita que o cinema é uma ferramenta importante de emancipação para mulheres? Por quê?

Sim! Acredito que quando nós, mulheres, levamos para as telas nossas histórias isso ganha força e, como consequência, fortalece outras que achavam que não era possível produzir e se ver nas telas. O fato de nos enxergarmos em outras gera um espaço diverso e lindo de viver.

Laís Dantas

Você faz teu corre com cinema e coloca na internet. Você acha a internet democrática? Por quê?

Em partes, percebo muito pela minha rede. Eu posto e meus amigos me dão um feedback bacana. Graças a eles, outras pessoas chegaram até meus vídeos e recebi até pedidos para alguns trabalhos como freelancer, o que me ajuda bastante.

Como você imagina o futuro do nosso país em termos de direitos para as mulheres?

Ainda temos muito a alcançar, mas imagino que será melhor do que hoje. Acredito que a cada a dia que passa, ganhamos um ponto. Quando eu estava no ensino fundamental, ouvia falar vagamente sobre os direitos das mulheres nas aulas de história e hoje é um assunto que meninas de 10, 11 anos já discutem. Não sei se a nossa geração vai viver nesse futuro, mas acredito que estamos lutando para que ele seja bom assim como muitas mulheres fizeram por nós no passado.

Por que você escolheu o audiovisual para se expressar? E como achou essa linguagem?

É engraçado, porque isso surgiu do nada. Minha mãe vende tapioca, saiu do Nordeste cedo para trabalhar em Brasília e veio para o Rio de Janeiro, ela estudou pouco. Existem algumas histórias desse nicho que as pessoas contam que começaram a filmar desde pequenos. Lembro que quando eu era pequena, minha mãe nem deixava eu chegar perto da máquina fotográfica para não quebrar. Eu comecei a cursar Publicidade, porque achei que não teria Matemática (e tem! Haha). Eu caí de paraquedas, mas acabei me achando. Comecei a estagiar no canal de TV da faculdade, editava vídeos de alunos, gravava também e fuçava tudo, aprendi bastante. Eu cheguei a estudar fotografia e litografia na Escola de Artes Visuais Parque Lage (quando ofertavam cursos gratuitos), o que abriu muito minha cabeça para o lado mais artístico das coisas, foi uma baita experiência. Ter conhecido colaboradores do Mate com Angu e da Escola de Cinema Livre em Nova Iguaçu, me fez querer colocar mais da Baixada (Fluminense) nos vídeos. Arthur William me ajudou muito nesse processo também. Então eu comecei a ver necessidade de colocar meu sentimento nas imagens e fui indo no espírito “câmera na mão e uma ideia na cabeça”.

Laís Dantas

Quais são suas referências no cinema brasileiro e mundial?

Minhas referências/inspirações são mais as pessoas do que as obras delas. No cinema brasileiro, sou apaixonada pelo pessoal da Baixada, como a TV Olho e você, Yasmim. Fora da Baixada, admiro a Ana Muylaert e a Laís Bodanzky. Eu não sou uma “cinéfila de plantão”, mas estou começando a estudar teoria do cinema e roteiro porque tenho muita dificuldade em escrever. Nesse sentido, me inspiro em Ava Duvernay, Francis Ford Coppola, Jean-Luc Godard e Wes Anderson.

SÉRIE GÊNERO, TECNOLOGIA E SOCIEDADE | 3ª parte

O Dia Internacional das Mulheres é uma data que marca a luta pelo avanço de direitos: legais, trabalhistas, sociais, ao corpo e, também, digitais. Entender como a tecnologia afeta questões de gênero — e vice-versa — é fundamental para promover debates mais informados e avanços reais para a igualdade de gênero em tempos de retrocessos e contextos políticos e sociais conturbados. Dessa forma, o Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio (ITS Rio) lança a série Gênero, Tecnologia e Sociedade, celebrando esse dia, com textos que serão publicados durante todo o mês de março. As mulheres da nossa equipe abordarão temas como ciberfeminismo e ativismo digital, o papel das mulheres na inovação, mulheres produtoras de audiovisual, pornografia de vingança e direito à imagem.

*Yasmin Tainá é consultora de audiovisual no ITS Rio e cineasta, diretora e fundadora da AFROFLIX.

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