Homens Primatas e Capitalismo Selvagem no livro Oryx e Crake, de Margaret Atwood

Mais vezes que não, a ficção científica é vista como um gênero de livro de qualidade secundária. Alega-se que histórias dessa categoria valorizam ideias e personagens à custa de uma narrativa emocionalmente complexa. As estantes de livrarias estão repletas de exemplos de livros que são pouco mais que uma resposta indulgente e incoerente a um cenário hipotético, muitas vezes com pouca conexão com a nossa realidade atual.

É bom, então, que Margaret Atwood, a mulher por trás de O Conto da Aia, não escreva ficção científica. Há anos, a autora canadense insiste que seus livros não pertencem a essa classificação tão desvalorizada. Ela os classifica como “ficção especulativa”, ou seja, uma projeção do mundo contemporâneo a sua conclusão lógica. Se esse gênero existe mesmo ou não é mais uma questão semântica, mas o que é evidente é que os livros de Atwood existem em uma categoria à parte em termos de qualidade, estilo e relevância.

Em Oryx e Crake, publicado em 2003, Atwood apresenta uma visão de um futuro próximo em que governos foram substituídos por corporações de biomedicina que protegem seus funcionários do caos anárquico do mundo por meio de comunidades fechadas. Nesses subúrbios futurísticos, os residentes têm acesso a todos os luxos imagináveis — comida geneticamente modificada para ter o melhor gosto possível, tratamentos médicos avançados, pílulas que causam êxtase e revertem o envelhecimento — desde que eles contribuam para a comunidade e não questionem as experiências de modificação genética desenvolvidas pelas corporações.

Mas a história não começa com esse mundo onde o único limite é a margem de lucro. Primeiro encontramos um homem sozinho, aparentemente o único sobrevivente da raça humana depois do desastre global. Quase nu, à beira da fome, e bebendo para esquecer o mundo que existia antes, “o homem das neves” foi reduzido pela natureza bruta a um estado mais animalesco que humano. Enquanto “o homem das neves” sofre nesse novo mundo inóspito, um grupo de seres humanoides gentis e desinibidos floresce, perfeitamente adaptados ao que resta da natureza. O resto do livro alterna entre esse presente distópico e as memórias do “homem das neves” do que aconteceu para provocar o colapso da humanidade.

Por mais que a imaginação da Atwood seja impressionante e seus personagens cativantes, o que impressiona mais sobre esse livro é a visão assustadoramente cética de ciência e sociedade que Atwood apresenta. Edição fácil de códigos genéticos, porcos modificados para que seus órgãos possam ser transplantados em pessoas, frango in vitro, a popularidade de sites de vídeo, todos esses fenômenos apareceram em Oryx e Crake antes de virarem realidade.

Mas o que está ausente do livro é tão importante quanto o que está lá. Quase não há menção aos limites legais daquela sociedade. Hoje em dia, quando o desenvolvimento de tecnologias como a Inteligência Artificial, biomedicina e realidade virtual parece estar progredindo a velocidade da luz, o Direito continua sendo umas das ferramentas mais potentes para evitarmos a catástrofe ecológica e a imensa desigualdade de Oryx e Crake. Com regulamentação consciente podemos incentivar um impacto social positivo sem sacrificar o progresso científico. Sim, Oryx e Crake pode ser lido como um manual claro para se criar um desastre, mas esse manual também sugere um modo para evitarmos tais previsões.

*Sofia Martins estuda literatura comparada na Universidade de Columbia e é colaboradora do ITS Rio.

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